- Amor-fati:
"Do
mesmo modo, quando uma enorme e régia riqueza chega às mãos de um mau dono, perde-se
em um único instante; mas uma riqueza, ainda que módica, se for entregue a um
bom guardião, cresce com o seu próprio uso, assim também a nossa existência
muito se expande para quem dispõe bem dela."
No
final, um dos primeiros passos para alcançar a liberdade e começar a agir é não
ceder à negligência e ao luxo da ideia de que podemos comprar tempo. Devemos
evitar traçar objetivos excessivamente distantes, pois quanto mais distante o
objetivo, mais a vida passará diante de nossos olhos. A chave está em apreciar
o presente, fazer escolhas conscientes e buscar um equilíbrio entre nossas
aspirações futuras e a capacidade de viver plenamente no momento presente.
Dessa forma, podemos realmente aproveitar a vida e evitar desperdiçar o tempo
valioso que temos.
Estamos
constantemente em busca de desejos, perseguindo metas, objetivos e, muitas
vezes, nos submetendo a um "servilismo voluntário". Essa incessante
busca muitas vezes nos impede de olhar para dentro de nós mesmos e empreender
em algo verdadeiramente significativo para nossa própria existência. O tempo é
a única certeza que temos em mãos, e a vida, por sua vez, é definida por como
utilizamos esse conceito na prática. No entanto, é como se estivéssemos
buscando algo que acreditamos possuir, mas na realidade, apenas a ideia de
tempo nos impulsiona a buscar coisas. Confessando entre nós, muitas vezes
perseguimos objetivos, desejos e nos entregamos a vícios simplesmente porque
sabemos que um dia iremos morrer. O ser humano está ciente de sua existência
medíocre, está enraizado em nosso DNA a noção de que estamos aqui sem um sentido
claro e que, eventualmente, morreremos sem tê-lo encontrado. Há tempos atrás,
poderíamos recorrer a um Deus, dogma ou até mesmo tradições para fornecer um
propósito, mesmo que fosse uma coroa de espinhos. Quando Nietzsche anunciou a
"morte de Deus", ele simplesmente formalizou o que já estava à
espreita. Havia muito tempo que tínhamos retirado esse Deus, ser e religião de
seus tronos metafísicos e místicos. Desde que começamos a questionar com razão,
perdemos o medo de ser subjugados por uma força divina. Ao expressarmos Deus
através da razão, empirismo e lógica, já tínhamos matado o ser divino. No
entanto, ainda não sabíamos o que fazer com o sangue em nossas mãos. Até hoje,
permanecemos atados ao uso da razão, uma vez descoberta, nunca mais poderemos
cobri-la novamente. O desafio está em encontrar significado em um mundo onde o
divino foi substituído pela razão, e o sentido da existência permanece uma
busca constante, carregando o peso da responsabilidade pela nossa própria
criação de significado.
A
falta de sentido, a ausência de uma meta e objetivo, tem sido um fardo que nos
impulsiona a correr incessantemente. Desde que nos tornamos conscientes de que
vivemos à sombra de um Deus morto, desde que percebemos um dos maiores pesos
que a vida pode nos impor, nos tornamos frágeis. Nietzsche previu que a falta
de sentido nos colocaria em perigo em várias ocasiões. Um dos motivos pelos
quais ainda estamos presos a objetivos, metas e à busca incessante por
"ter mais tempo" é que ainda não aprendemos a lidar com a falta de
sentido. É preciso ser grande, expansivo e até mesmo forte para impor um
sentido à vida e segui-lo, lembrando sempre que jamais devemos torná-lo rígido.
A vida é caracterizada por mudanças constantes, transformações e destruição de
objetivos. O que nos agrada hoje pode não ter o mesmo apelo amanhã. Chegamos a
um ponto em que precisamos ter plena consciência de que nunca estaremos fixos e
imutáveis, estamos em constante mudança. Nossa pele envelhece, nosso corpo se
torna frágil e nossa mente enfraquece ao longo do tempo. Seria necessário ser
um ser divino para não sucumbir aos vícios e desejos desta vida. A venda de
"tempo" e "comodidades" tem sido um negócio lucrativo, mas
o que há nessa superfície tão rasa? São apenas pessoas presas a si mesmas e aos
outros, relutantes em entrar e mergulhar em uma existência desprovida de
sentido. Viver com a ausência de sentido e se entregar a uma vida em constante
transformação não é algo com que todos estejam dispostos a lidar. Isso não
significa que os gurus tenham sempre razão. Embora possam ter algum fundamento,
nem todos estão realmente trazendo uma transformação significativa. A ideia de
mudança é vendável, afinal, é a única constante visível em nossas vidas.
Contudo, a transformação pode ser dolorosa, e viver sem um propósito é quase
impossível, como observa Sêneca: "Há aqueles que, por um servilismo
voluntário, são consumidos pelo culto aos seus superiores ingratos."
A busca por metas, desejos e objetivos, indo além do
hoje, muitas vezes é impulsionada pela falta de sentido, pela ausência de um
Deus, religião ou tradição. Muitos, especialmente os cristãos, preferem fazer
parte de um rebanho, ter um pastor, em vez de enfrentar a jornada de viver uma
vida independente, surfando na aparente falta de sentido. Vale destacar que a
vida não é necessariamente curta ou intrinsecamente ruim; é requerida uma força
interior considerável para permanecer vivo e distante do conforto do rebanho.
Lidar com a perda de um Deus pode ser um processo de luto complexo, mas é um
passo essencial para viver em meio à aparente ausência de sentido. Nesse
contexto, a coragem e a resiliência são fundamentais para explorar e encontrar
significado em uma vida que muitas vezes parece desprovida de um propósito
transcendental predefinido.
- Uma das formas de vencer uma ausência de sentido é
através do olhar para si mesmo.
É verdade que não são as metas, objetivos, mudanças e
desejos que devem impulsionar nossa vida, mas sim nós mesmos. A essência da
nossa existência está intrinsecamente ligada à forma como usamos o tempo
diariamente. Construímos quem somos através da maneira como vivemos cada dia. O
foco deve estar no presente, nas oportunidades diárias que temos diante de nós.
Buscar constantemente um destino final pode tirar o valor da vida que está
acontecendo hoje. Em vez de nos perdermos na busca incessante por um lugar para
chegar, é crucial ter uma bússola em mãos, uma estrela guia no céu, pernas para
caminhar e olhos para enxergar o que está acontecendo neste exato momento.
Apreciar o presente e fazer escolhas conscientes diariamente são
elementos chave para uma vida significativa e plena.
Quando Marco Aurélio fala, "A felicidade vem da
qualidade dos seus pensamentos", ele destaca a importância da nossa
perspectiva e mentalidade na busca pela felicidade. Quando aplicamos essa ideia
à realidade contemporânea, podemos observar como as comparações constantes com
os outros, as preocupações com o futuro, objetivos e metas muitas vezes
impactam nossos pensamentos e, por consequência, nossa felicidade. A ambição é
uma característica inerente à natureza humana e desempenhou um papel
fundamental no progresso e avanço da sociedade. No entanto, é essencial
questionarmos até que ponto essa ambição é saudável para nós. O sistema em que
vivemos muitas vezes explora essa ambição natural, nos colocando em uma busca
constante por salários maiores, empregos melhores, noites de sono aprimoradas,
viagens, produtos e assim por diante. Não é necessário demonizar completamente
a ambição, pois ela impulsionou conquistas significativas. No entanto, é
crucial avaliar o custo dessa busca incessante. A constante exposição a
momentos de tela, a influência de milhares de visões de mundo que estabelecem
padrões e sistemas a seguir, muitas vezes nos coloca no meio de um rebanho, nos
afastando de nossa própria autenticidade e essência. Ao refletirmos sobre
nossos desejos e ambições, é importante considerar se esses impulsos estão
alinhados com nossa verdadeira felicidade e bem-estar, ou se estamos
simplesmente seguindo padrões externos que podem nos afastar do que realmente
importa. Essa conscientização pode ser um passo significativo em direção a uma
vida mais autêntica e satisfatória.
Muitas vezes, na busca intensa pela felicidade,
podemos nos ver em um ciclo constante de insatisfação. Quanto mais ansiamos por
ela, mais ela parece se esquivar, como se a própria pressão pela busca constante
nos afastasse do estado de contentamento. Essa ideia alinha-se com perspectivas
filosóficas que sugerem que a verdadeira felicidade pode ser encontrada quando
não a perseguimos diretamente, mas sim quando nos dedicamos a atividades
significativas, cultivamos relacionamentos saudáveis e encontramos propósito em
nossas vidas cotidianas. É um equilíbrio delicado entre aspirar à felicidade e
permitir que ela se manifeste organicamente em nossas vidas. Às vezes, ao
deixar de nos concentrarmos excessivamente na busca pela felicidade e, em vez
disso, nos envolvermos em experiências autênticas, podemos descobrir que ela se
torna uma companheira mais constante e menos esquiva.
A felicidade deve ser retratada como uma jornada, não
como uma meta ou objetivo fixo. Ela é mais do que um destino a ser alcançado; é
um estado de espírito intenso e efêmero que nos envolve inicialmente, atravessa
nosso ser e, eventualmente, se torna parte integrante de quem somos. Ao
perceber a felicidade como um estado de espírito contínuo, reconhecemos que ela
pode se manifestar em diferentes formas e intensidades ao longo do tempo. Essa compreensão mais fluida
da felicidade pode nos libertar da pressão de atender a expectativas externas
ou buscar padrões predefinidos. Ao invés disso, podemos permitir que a
felicidade floresça naturalmente em nossa jornada, tornando-se um companheiro constante,
independentemente das circunstâncias externas.
- Quanto maior a busca pela felicidade, maior será a
sua infelicidade.
- Quanto maior foi o seu desejo por ócio, mas
significa que não vive uma vida para ti.
A sociedade contemporânea muitas vezes promove a ideia de que mais tempo e dinheiro automaticamente trarão facilidades e uma positividade constante. No entanto, essa narrativa pode ser desgastante, especialmente quando consideramos que a maior parte da nossa existência também é permeada por desafios e experiências dolorosas. A busca incessante por mais recursos e conforto pode criar expectativas irrealistas, levando a um ciclo de insatisfação e estresse. Além disso, a positividade excessiva muitas vezes desconsidera a complexidade da experiência humana, onde a dor, o sofrimento e os desafios desempenham papéis significativos. Reconhecer e aceitar a dualidade da vida, que inclui momentos de alegria e dor, pode permitir uma compreensão mais equilibrada e realista da existência. Em vez de buscar uma positividade constante, pode ser valioso cultivar a resiliência para enfrentar os desafios e apreciar os momentos de alegria quando eles surgem, mesmo em meio às adversidades.
Vivemos tão atarefados, estamos presos a um sistema que nos obriga a vender horas de nossa vida em troca de sobrevivência, apenas alguns afortunados tem e podem gozar de uma vida boa. Se não bastasse isso, buscamos constantemente estar feliz, bem e algo melhor, sempre temos essa ambição de algo melhor, e por conta disso, o sistema funciona bem e nos coloca contra nós mesmos, sobreviver ou morrer? Enquanto buscamos desesperadamente uma vida melhor, um salário maior, mais deixamos nossa existência de lado. Esperamos um futuro que não é garantido, uma aposentadoria, um feriado, descanso para estar bem, e quantos com esses breves momentos ainda descansam e estão consigo mesmo? Existem milhares de pessoas avarentas pelo mundo, não gastam se quer um centavo nem que seja para si mesmo, e quanto tempo se gasta com outras pessoas? Quanto de si é doado ao outro sem ao menos estar consciente disso?
“Cada um precipita sua própria vida e sofre pelo
desejo do futuro e o tédio do presente.” - Sêneca.
Enquanto estivermos presos a um sistema, a uma meta, objetivo e desejo pelo futuro, sempre iremos deixar de lado a nossa existência e nosso tempo escorrer pelos nossos dedos.
Hoje em dia muitas pessoas gostam de compartilhar a sua vida nas redes, atrás do que? Um aplauso? Reconhecimento? Não adianta pregar que leva uma vida inteira feliz, pois, antes mesmo de estar vivo é preciso sofrer, você só sabe que é feliz, não por conta de uma vida inteira boa, mas porque um dia sofreu.
Concluo, então, que o estoicismo hoje se vende facilmente. Não porque as pequenas frases, lições e algumas ideias não estejam corretas ou sejam verdadeiramente estoicas, mas sim porque o mundo contemporâneo encontrou uma maneira de comercializar uma realidade que não é fácil de vivenciar atualmente. Isso se deve aos inúmeros dias de trabalho, às longas horas dentro de uma sala, deixando nossa vida de lado em troca de um salário muitas vezes é insuficiente. Infelizmente, não temos para onde correr, visto que a realidade que nos é imposta precisa ser aceita, queiramos ou não. Enquanto permanecermos presos à ideia de que um dia seremos verdadeiramente estoicos, vivendo uma vida eternamente feliz e aceitando a vida como ela é, ainda estaremos submersos nessa sub-filosofia que circula nas redes sociais. A ilusão de que apenas seguir um indivíduo rico ou uma página que posta frases de Sêneca, Marco Aurélio e Epicteto pode mudar nosso "mindset" e nos proporcionar uma vida maravilhosa, isso sempre irá se tornar uma procrastinação do verdadeiro motivo que está por trás dessa busca por uma meta, que, neste caso, é a falta de sentido. Finalizo com a seguinte ressalva: hoje, muitas pessoas lucram consideravelmente com essa problemática. Quanto mais investimos em cursos de coachs prometendo uma mudança de vida ou a tão chamada "virada de chave", mais nos afastamos de viver uma vida para nós mesmos. Uma vida em que nossa existência se torna o foco central, como se fôssemos um bloco de mármore que estamos constantemente nos auto esculpindo.
![]() |
| O Self Made Man é uma escultura da artista de Loveland, Bobbie Carlyle, que retrata um homem se esculpindo a partir de uma pedra bruta da qual emerge. |
Portanto, uma das formas mais simples de aliviar, ajudar e até mesmo dar um pequeno rumo em nossas vidas é ter uma bússola em mãos, uma estrela guia no céu, pernas para caminhar e olhos para observar a vida que se desenrola hoje. Não há necessidade da pressão incessante de sermos felizes o tempo todo, ter uma meta grandiosa para nos realizarmos ou acreditar que precisamos viver uma vida plena. No final das contas, só precisamos atribuir um sentido, caminhar e viver o hoje. Talvez, o que realmente precisamos seja apenas abraçar o Amor-Fati.
- Dedico esse ensaio ao comentário no texto "Time", feito por Flávio, agradeço a sua critica e por me proporcionar a possibilidade de melhorar minha escrita.

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