- Amor-fati:

Sêneca nos mostra o quanto as pessoas reclamam de que a vida é breve e como a "natureza" parece ser má conosco, já que vivemos tão pouco tempo. Parece que, justamente quando estamos preparados para viver plenamente, a vida nos é tirada, e não temos a oportunidade de realmente aproveitá-la. Ao transpor essa reflexão para a era digital, percebemos a quantidade de discursos que ressaltam as ideias de "comodidades", "facilidades" e "ganhe mais tempo". São inúmeros argumentos apresentados, vendendo a ideia de que a vida está passando rapidamente diante de nossos olhos. Estamos trocando nosso tempo por dinheiro, embora, apesar desse cenário, ainda estamos presos em rotinas estressantes. Mesmo com gigantes digitais nos dizendo para aproveitar a vida, continuamos aprisionados em ciclos intermináveis de trabalho, muitas vezes com apenas um ou dois dias para descanso. O que falta para que, além de conscientes de que a vida passa, possamos de fato agir? Apesar de o estoicismo ser propagado como uma filosofia popular, viver essa filosofia na prática pode ser um dos maiores desafios atualmente. E não se restringe apenas ao estoicismo; há muitos gurus que lucram consideravelmente à custa de pessoas desesperadas que buscam um caminho, mesmo que, por vezes, estejam seguindo uma abordagem equivocada. É nas costas dessas pessoas que esses gurus prosperam, aproveitando-se do sistema que nos absorve, prometendo-nos a ilusão de que, ao final, teremos tempo para nós mesmos.

Percebemos que a vida, está longe de ser breve, é generosa quando sabemos fazer bom uso do tempo que temos. Enquanto nos prendemos à negligência, ganância, luxo e até mesmo a metas, a vida continua a fluir diante de nós. Ela é como um fio condutor que atravessa nosso ser, uma energia que sentimos passar pelo meio do peito. No entanto, ao nos apegarmos a metas, objetivos e ao amanhã, corremos o risco de desperdiçar essa vida de maneira desnecessária. Sêneca expressa esse pensamento de forma metafórica ao dizer:

"Do mesmo modo, quando uma enorme e régia riqueza chega às mãos de um mau dono, perde-se em um único instante; mas uma riqueza, ainda que módica, se for entregue a um bom guardião, cresce com o seu próprio uso, assim também a nossa existência muito se expande para quem dispõe bem dela."

No final, um dos primeiros passos para alcançar a liberdade e começar a agir é não ceder à negligência e ao luxo da ideia de que podemos comprar tempo. Devemos evitar traçar objetivos excessivamente distantes, pois quanto mais distante o objetivo, mais a vida passará diante de nossos olhos. A chave está em apreciar o presente, fazer escolhas conscientes e buscar um equilíbrio entre nossas aspirações futuras e a capacidade de viver plenamente no momento presente. Dessa forma, podemos realmente aproveitar a vida e evitar desperdiçar o tempo valioso que temos.

Estamos constantemente em busca de desejos, perseguindo metas, objetivos e, muitas vezes, nos submetendo a um "servilismo voluntário". Essa incessante busca muitas vezes nos impede de olhar para dentro de nós mesmos e empreender em algo verdadeiramente significativo para nossa própria existência. O tempo é a única certeza que temos em mãos, e a vida, por sua vez, é definida por como utilizamos esse conceito na prática. No entanto, é como se estivéssemos buscando algo que acreditamos possuir, mas na realidade, apenas a ideia de tempo nos impulsiona a buscar coisas. Confessando entre nós, muitas vezes perseguimos objetivos, desejos e nos entregamos a vícios simplesmente porque sabemos que um dia iremos morrer. O ser humano está ciente de sua existência medíocre, está enraizado em nosso DNA a noção de que estamos aqui sem um sentido claro e que, eventualmente, morreremos sem tê-lo encontrado. Há tempos atrás, poderíamos recorrer a um Deus, dogma ou até mesmo tradições para fornecer um propósito, mesmo que fosse uma coroa de espinhos. Quando Nietzsche anunciou a "morte de Deus", ele simplesmente formalizou o que já estava à espreita. Havia muito tempo que tínhamos retirado esse Deus, ser e religião de seus tronos metafísicos e místicos. Desde que começamos a questionar com razão, perdemos o medo de ser subjugados por uma força divina. Ao expressarmos Deus através da razão, empirismo e lógica, já tínhamos matado o ser divino. No entanto, ainda não sabíamos o que fazer com o sangue em nossas mãos. Até hoje, permanecemos atados ao uso da razão, uma vez descoberta, nunca mais poderemos cobri-la novamente. O desafio está em encontrar significado em um mundo onde o divino foi substituído pela razão, e o sentido da existência permanece uma busca constante, carregando o peso da responsabilidade pela nossa própria criação de significado.

A falta de sentido, a ausência de uma meta e objetivo, tem sido um fardo que nos impulsiona a correr incessantemente. Desde que nos tornamos conscientes de que vivemos à sombra de um Deus morto, desde que percebemos um dos maiores pesos que a vida pode nos impor, nos tornamos frágeis. Nietzsche previu que a falta de sentido nos colocaria em perigo em várias ocasiões. Um dos motivos pelos quais ainda estamos presos a objetivos, metas e à busca incessante por "ter mais tempo" é que ainda não aprendemos a lidar com a falta de sentido. É preciso ser grande, expansivo e até mesmo forte para impor um sentido à vida e segui-lo, lembrando sempre que jamais devemos torná-lo rígido. A vida é caracterizada por mudanças constantes, transformações e destruição de objetivos. O que nos agrada hoje pode não ter o mesmo apelo amanhã. Chegamos a um ponto em que precisamos ter plena consciência de que nunca estaremos fixos e imutáveis, estamos em constante mudança. Nossa pele envelhece, nosso corpo se torna frágil e nossa mente enfraquece ao longo do tempo. Seria necessário ser um ser divino para não sucumbir aos vícios e desejos desta vida. A venda de "tempo" e "comodidades" tem sido um negócio lucrativo, mas o que há nessa superfície tão rasa? São apenas pessoas presas a si mesmas e aos outros, relutantes em entrar e mergulhar em uma existência desprovida de sentido. Viver com a ausência de sentido e se entregar a uma vida em constante transformação não é algo com que todos estejam dispostos a lidar. Isso não significa que os gurus tenham sempre razão. Embora possam ter algum fundamento, nem todos estão realmente trazendo uma transformação significativa. A ideia de mudança é vendável, afinal, é a única constante visível em nossas vidas. Contudo, a transformação pode ser dolorosa, e viver sem um propósito é quase impossível, como observa Sêneca: "Há aqueles que, por um servilismo voluntário, são consumidos pelo culto aos seus superiores ingratos."

A busca por metas, desejos e objetivos, indo além do hoje, muitas vezes é impulsionada pela falta de sentido, pela ausência de um Deus, religião ou tradição. Muitos, especialmente os cristãos, preferem fazer parte de um rebanho, ter um pastor, em vez de enfrentar a jornada de viver uma vida independente, surfando na aparente falta de sentido. Vale destacar que a vida não é necessariamente curta ou intrinsecamente ruim; é requerida uma força interior considerável para permanecer vivo e distante do conforto do rebanho. Lidar com a perda de um Deus pode ser um processo de luto complexo, mas é um passo essencial para viver em meio à aparente ausência de sentido. Nesse contexto, a coragem e a resiliência são fundamentais para explorar e encontrar significado em uma vida que muitas vezes parece desprovida de um propósito transcendental predefinido.

- Uma das formas de vencer uma ausência de sentido é através do olhar para si mesmo.

É verdade que não são as metas, objetivos, mudanças e desejos que devem impulsionar nossa vida, mas sim nós mesmos. A essência da nossa existência está intrinsecamente ligada à forma como usamos o tempo diariamente. Construímos quem somos através da maneira como vivemos cada dia. O foco deve estar no presente, nas oportunidades diárias que temos diante de nós. Buscar constantemente um destino final pode tirar o valor da vida que está acontecendo hoje. Em vez de nos perdermos na busca incessante por um lugar para chegar, é crucial ter uma bússola em mãos, uma estrela guia no céu, pernas para caminhar e olhos para enxergar o que está acontecendo neste exato momento. Apreciar o presente e fazer escolhas conscientes diariamente são elementos chave para uma vida significativa e plena.

Quando Marco Aurélio fala, "A felicidade vem da qualidade dos seus pensamentos", ele destaca a importância da nossa perspectiva e mentalidade na busca pela felicidade. Quando aplicamos essa ideia à realidade contemporânea, podemos observar como as comparações constantes com os outros, as preocupações com o futuro, objetivos e metas muitas vezes impactam nossos pensamentos e, por consequência, nossa felicidade. A ambição é uma característica inerente à natureza humana e desempenhou um papel fundamental no progresso e avanço da sociedade. No entanto, é essencial questionarmos até que ponto essa ambição é saudável para nós. O sistema em que vivemos muitas vezes explora essa ambição natural, nos colocando em uma busca constante por salários maiores, empregos melhores, noites de sono aprimoradas, viagens, produtos e assim por diante. Não é necessário demonizar completamente a ambição, pois ela impulsionou conquistas significativas. No entanto, é crucial avaliar o custo dessa busca incessante. A constante exposição a momentos de tela, a influência de milhares de visões de mundo que estabelecem padrões e sistemas a seguir, muitas vezes nos coloca no meio de um rebanho, nos afastando de nossa própria autenticidade e essência. Ao refletirmos sobre nossos desejos e ambições, é importante considerar se esses impulsos estão alinhados com nossa verdadeira felicidade e bem-estar, ou se estamos simplesmente seguindo padrões externos que podem nos afastar do que realmente importa. Essa conscientização pode ser um passo significativo em direção a uma vida mais autêntica e satisfatória.

Muitas vezes, na busca intensa pela felicidade, podemos nos ver em um ciclo constante de insatisfação. Quanto mais ansiamos por ela, mais ela parece se esquivar, como se a própria pressão pela busca constante nos afastasse do estado de contentamento. Essa ideia alinha-se com perspectivas filosóficas que sugerem que a verdadeira felicidade pode ser encontrada quando não a perseguimos diretamente, mas sim quando nos dedicamos a atividades significativas, cultivamos relacionamentos saudáveis e encontramos propósito em nossas vidas cotidianas. É um equilíbrio delicado entre aspirar à felicidade e permitir que ela se manifeste organicamente em nossas vidas. Às vezes, ao deixar de nos concentrarmos excessivamente na busca pela felicidade e, em vez disso, nos envolvermos em experiências autênticas, podemos descobrir que ela se torna uma companheira mais constante e menos esquiva.

A felicidade deve ser retratada como uma jornada, não como uma meta ou objetivo fixo. Ela é mais do que um destino a ser alcançado; é um estado de espírito intenso e efêmero que nos envolve inicialmente, atravessa nosso ser e, eventualmente, se torna parte integrante de quem somos. Ao perceber a felicidade como um estado de espírito contínuo, reconhecemos que ela pode se manifestar em diferentes formas e intensidades ao longo do tempo. Essa compreensão mais fluida da felicidade pode nos libertar da pressão de atender a expectativas externas ou buscar padrões predefinidos. Ao invés disso, podemos permitir que a felicidade floresça naturalmente em nossa jornada, tornando-se um companheiro constante, independentemente das circunstâncias externas.

- Quanto maior a busca pela felicidade, maior será a sua infelicidade.

- Quanto maior foi o seu desejo por ócio, mas significa que não vive uma vida para ti.

A sociedade contemporânea muitas vezes promove a ideia de que mais tempo e dinheiro automaticamente trarão facilidades e uma positividade constante. No entanto, essa narrativa pode ser desgastante, especialmente quando consideramos que a maior parte da nossa existência também é permeada por desafios e experiências dolorosas. A busca incessante por mais recursos e conforto pode criar expectativas irrealistas, levando a um ciclo de insatisfação e estresse. Além disso, a positividade excessiva muitas vezes desconsidera a complexidade da experiência humana, onde a dor, o sofrimento e os desafios desempenham papéis significativos. Reconhecer e aceitar a dualidade da vida, que inclui momentos de alegria e dor, pode permitir uma compreensão mais equilibrada e realista da existência. Em vez de buscar uma positividade constante, pode ser valioso cultivar a resiliência para enfrentar os desafios e apreciar os momentos de alegria quando eles surgem, mesmo em meio às adversidades.

Vivemos tão atarefados, estamos presos a um sistema que nos obriga a vender horas de nossa vida em troca de sobrevivência, apenas alguns afortunados tem e podem gozar de uma vida boa. Se não bastasse isso, buscamos constantemente estar feliz, bem e algo melhor, sempre temos essa ambição de algo melhor, e por conta disso, o sistema funciona bem e nos coloca contra nós mesmos, sobreviver ou morrer? Enquanto buscamos desesperadamente uma vida melhor, um salário maior, mais deixamos nossa existência de lado. Esperamos um futuro que não é garantido, uma aposentadoria, um feriado, descanso para estar bem, e quantos com esses breves momentos ainda descansam e estão consigo mesmo? Existem milhares de pessoas avarentas pelo mundo, não gastam se quer um centavo nem que seja para si mesmo, e quanto tempo se gasta com outras pessoas? Quanto de si é doado ao outro sem ao menos estar consciente disso?

“Cada um precipita sua própria vida e sofre pelo desejo do futuro e o tédio do presente.” - Sêneca.

Enquanto estivermos presos a um sistema, a uma meta, objetivo e desejo pelo futuro, sempre iremos deixar de lado a nossa existência e nosso tempo escorrer pelos nossos dedos.

Hoje em dia muitas pessoas gostam de compartilhar a sua vida nas redes, atrás do que? Um aplauso? Reconhecimento? Não adianta pregar que leva uma vida inteira feliz, pois, antes mesmo de estar vivo é preciso sofrer, você só sabe que é feliz, não por conta de uma vida inteira boa, mas porque um dia sofreu.

Concluo, então, que o estoicismo hoje se vende facilmente. Não porque as pequenas frases, lições e algumas ideias não estejam corretas ou sejam verdadeiramente estoicas, mas sim porque o mundo contemporâneo encontrou uma maneira de comercializar uma realidade que não é fácil de vivenciar atualmente. Isso se deve aos inúmeros dias de trabalho, às longas horas dentro de uma sala, deixando nossa vida de lado em troca de um salário muitas vezes é insuficiente. Infelizmente, não temos para onde correr, visto que a realidade que nos é imposta precisa ser aceita, queiramos ou não. Enquanto permanecermos presos à ideia de que um dia seremos verdadeiramente estoicos, vivendo uma vida eternamente feliz e aceitando a vida como ela é, ainda estaremos submersos nessa sub-filosofia que circula nas redes sociais. A ilusão de que apenas seguir um indivíduo rico ou uma página que posta frases de Sêneca, Marco Aurélio e Epicteto pode mudar nosso "mindset" e nos proporcionar uma vida maravilhosa, isso sempre irá se tornar uma procrastinação do verdadeiro motivo que está por trás dessa busca por uma meta, que, neste caso, é a falta de sentido. Finalizo com a seguinte ressalva: hoje, muitas pessoas lucram consideravelmente com essa problemática. Quanto mais investimos em cursos de coachs prometendo uma mudança de vida ou a tão chamada "virada de chave", mais nos afastamos de viver uma vida para nós mesmos. Uma vida em que nossa existência se torna o foco central, como se fôssemos um bloco de mármore que estamos constantemente nos auto esculpindo. 

O Self Made Man é uma escultura da artista de Loveland, Bobbie Carlyle, que retrata um homem se esculpindo a partir de uma pedra bruta da qual emerge.
Sim, hoje o estoicismo é comercializado, oferecendo um certo fundamento, mas muitas vezes se apresenta como uma solução superficial para uma ilusão de mudança de vida. A transmissão desses ensinamentos de Sêneca evidencia que essa busca não é uma ideia contemporânea; desde tempos antigos, estávamos em busca e procurando significado. No entanto, se todos vivêssemos verdadeiramente dessa maneira, seguindo cegamente algo imposto por outros, não estaríamos todos nos tornado estoicos?

Portanto, uma das formas mais simples de aliviar, ajudar e até mesmo dar um pequeno rumo em nossas vidas é ter uma bússola em mãos, uma estrela guia no céu, pernas para caminhar e olhos para observar a vida que se desenrola hoje. Não há necessidade da pressão incessante de sermos felizes o tempo todo, ter uma meta grandiosa para nos realizarmos ou acreditar que precisamos viver uma vida plena. No final das contas, só precisamos atribuir um sentido, caminhar e viver o hoje. Talvez, o que realmente precisamos seja apenas abraçar o Amor-Fati.

- Dedico esse ensaio ao comentário no texto "Time", feito por Flávio, agradeço a sua critica e por me proporcionar a possibilidade de melhorar minha escrita.

- Se você leu até aqui, deixe o seu comentário sobre o que achou do texto. Dica, ouça a música com a tradução para melhor aproveitamento da leitura. 😁





Comentários

Postagens mais visitadas