- O que se tornou real:
Recentemente, surgem pensamentos inevitáveis e, entre eles, chego à constatação incômoda de que a vida talvez não possua sentido algum — somos todos uma existência breve, lançada no interior de um cosmos vasto, silencioso e indiferente; e, como se não bastasse essa imensidão que nos dilui, carregamos ainda um destino único e irrevogável, no qual todas as coisas, todos os seres e todas as criações caminham, sem exceção, para o mesmo fim, sendo, nesse aspecto, absolutamente iguais e esse fim se chama morte.
Podemos observar que, de um mísero verme a um grandioso sistema solar, tudo se move, de forma lenta e inevitavelmente, em direção ao próprio desaparecimento, como se o existir já carregasse, em si, a semente de sua própria dissolução. Esse é o único destino verdadeiramente certo, aderido à existência como uma marca invisível da qual não podemos fugir — nada pode escapar disso, nada se coloca fora dessa lei silenciosa que rege o real. Ainda assim, lembro-me de uma frase de Antoine Lavoisier, que diz: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”; e é justamente nessa ideia que se insinua uma espécie de consolo ambíguo, quase irônico, pois, mesmo que, no fundo, a morte seja inevitável, o universo se encarrega de reaproveitar toda matéria, reinscrevendo-a em novos arranjos, novas formas, novos acontecimentos que, por sua vez, também caminharão para o fim. No limite, aquilo que chamamos de “eu” não persiste, mas se desfaz, se dispersa, se reorganiza em algo que já não nos pertence — e, ainda assim, permanece como parte do todo. No fim, seremos poeira estelar vagando por um cosmos que não nos reconhece, nem nos exige, nem nos responde.
E é a partir dessa percepção que se impõe uma conclusão ainda mais desconcertante, que a vida, então, revela-se oca, vazia, desnecessária, destituída de qualquer fundamento último que a justifique para além de si mesma; nada nela é de fato imprescindível — nem o Ser, nem o planeta, nem mesmo aquilo que, em nossa ingenuidade, ousamos chamar de eterno. Tudo o que existe é apenas um entre bilhões, um evento entre incontáveis outros, e aceitar a pequenez da própria existência é reconhecer-se como uma mancha quase imperceptível na lente voltada para o universo; é também compreender que não há essencialidade alguma, que a vida não carrega, em si, nenhuma necessidade intrínseca, nenhum propósito inscrito em sua estrutura mais íntima e tudo o que se faz, tudo o que se sente, tudo o que se deseja, não passa de mais uma ocorrência entre incontáveis outras que já surgiram e desapareceram sem deixar vestígios; e mesmo aquilo que nos parece mais intenso — o amor, o ódio, a paixão, a tristeza, a felicidade —, quando despido de sua aparência poética e simbólica, reduz-se a reações químicas que percorrem silenciosamente a matéria orgânica, articulando-se por um breve instante antes de se dissiparem. E, ainda assim, há algo de profundamente inquietante nessa redução, pois, se por um lado ela dissolve qualquer pretensão de grandeza, por outro revela que até mesmo aquilo que consideramos mais íntimo e essencial não passa de um breve lapso em meio à vastidão do tempo — um instante que surge, vibra e desaparece, sem testemunha, sem finalidade, sem necessidade.
Aceitar essa ideia crua não é um gesto de pessimismo, nem de otimismo, nem mesmo de niilismo — mas, afinal, que gesto é esse? Se a existência se apresenta como uma travessia desgastante, algo a ser suportado até o inevitável encontro com o túmulo, então viver passa a se reduzir a uma sequência de atos mínimos: comer, beber, continuar — movimentos que se repetem sem finalidade superior, gestos que não apontam para lugar algum além de sua própria cessação. Se não há interesse em parecer pessimista, nem niilista, nem otimista, talvez reste o esforço de sustentar uma posição realista; mas o que ainda podemos chamar de “real” hoje? A própria realidade parece ter se fragmentado, dissolvida em camadas onde o que é vivido já não se distingue com clareza do que é representado. E é justamente aqui que se insinua a necessidade de trazer à filosofia aquilo que ainda não foi purificado — sentimentos brutos, contraditórios, imperfeitos, profundamente humanos — como uma tentativa de lançar alguma luz sobre um mundo envelhecido, sobre uma sociedade que parece adoecer sob o peso das próprias ilusões.
Vivemos em um tempo em que, como sugeriu Jean Baudrillard, o real já não desaparece simplesmente — ele é substituído. O mundo digital não apenas reflete a realidade, mas a recobre, a simula e, por fim, a torna dispensável. As imagens não representam mais algo que existe; elas passam a existir por si mesmas, criando uma espécie de hiper-realidade onde o simulacro se torna mais convincente do que o próprio real. Assim, o que se vê é um teatro contínuo de felicidade, de plenitude, de sentido — perfis cuidadosamente construídos, vidas editadas, emoções encenadas — e, ainda assim, por trás dessas superfícies iluminadas, persiste o mesmo vazio. Recorremos de forma quase desesperada a esse universo saturado de cores e estímulos, sem perceber o daltonismo silencioso que as telas provocam, onde a saturação de imagens não amplia a visão — ela a empobrece, e, ao empobrecê-la, empobrece também o próprio Ser. Já não basta que a vida, em si, careça de um sentido último; parece que também nos ocupamos em desperdiçar essa breve existência na repetição de gestos vazios, na produção incessante de aparências — e, no fundo, a quem interessa que permaneçamos assim, girando em ciclos estéreis, convertendo cada instante vivido em dado, em número, em métrica? A vida não se resume a fragmentos de segundos, nem a vídeos efêmeros consumidos com indiferença — e, no entanto, é exatamente isso que ela vem se tornando. E estar consciente disso não a torna mais bela.
Ela permanece fria.
Permanece cinzenta.
E talvez seja justamente aqui que se abre um outro caminho — não como fuga, mas como enfrentamento. Talvez caiba àqueles que se recusam a escapar — os realistas, mas não aqueles descritos por Jean Baudrillard, que ainda operam dentro da lógica do simulacro — e sim aqueles que ousam afirmar a existência tal como ela é, em sua crueza, em sua ausência de garantias, em sua falta de sentido. Há, aqui, uma aproximação possível com o amor-fati descrito por Nietzsche:
“276. Para o Ano-Novo. - Eu ainda vivo, eu ainda penso: ainda tenho de viver, pois ainda tenho de pensar. Sum, ergo cogito: cogito, ergo sum [Eu sou, portanto penso: eu penso, portanto sou]. Hoje, cada um se permite expressar o seu mais caro desejo e pensamento: também eu, então, quero dizer o que desejo para mim mesmo e que pensamento, este ano, me veio primeiramente ao coração – que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, devorante, o meu amor! Não quero fazer guerra com o que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!” – Nietzsche, A Gaia Ciência (§276).
Ou seja, não se trata de um consolo fácil, nem de uma tentativa de suavizar o peso da existência, mas de uma aceitação radical que não recua diante do que é duro, do que é vazio, do que é inevitável. Afirmar essa condição sem adornos, é reconhecer que a vida não se reduz a dados quantitativos nem a representações digitais — e, ainda assim, admitir que ela também não carrega em si qualquer necessidade inseparável — exige uma lucidez quase insuportável, uma disposição rara de permanecer diante do real sem buscar refúgio em ilusões reconfortantes. Nesse sentido, a existência revela-se como um borrão transitório, um aglomerado de matéria exposta ao tempo, carne abandonada sob o sol, decompondo-se lentamente até tornar-se, mais uma vez, parte do ciclo indiferente da vida.
A nossa existência é frágil.
Mas é justamente nessa fragilidade que talvez resida a única forma possível de verdade — não uma verdade grandiosa, universal, redentora, mas uma verdade mínima, quase silenciosa: a de que, apesar de tudo, ainda podemos escolher não nos reduzir completamente ao papel de figurantes nesse teatro de simulações. Estar consciente disso não nos salva, não nos eleva, não nos oferece sentido — mas talvez nos devolva algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais raro: a possibilidade de não sermos inteiramente passivos diante de um mundo que insiste em nos anestesiar, em nos distrair, em nos afastar daquilo que deveríamos, talvez, encarar de frente. E, nesse ponto, a reflexão de Hannah Arendt ressoa de maneira inquietante: o maior perigo não reside apenas na ação deliberada, mas justamente na ausência de pensamento, na adesão automática a dinâmicas que dispensam reflexão. Não se trata aqui de um mal grandioso, mas de algo mais sutil — uma forma de existência esvaziada, onde o indivíduo deixa de se confrontar consigo mesmo e passa apenas a repetir, consumir, reagir. É nesse esvaziamento que a passividade se consolida, e é justamente contra ela que talvez ainda reste algum gesto possível: o de pensar, mesmo quando pensar não oferece consolo algum.
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